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terça-feira, novembro 27

De como identifiquei o «Tratado de Confissom»





talvez alguns de nossos leitores não saibam, ou sequer imaginem, o quão valiosos podem ser os mais antigos manuscritos e também os primeiros incunábulos em lingua portuguesa. não só, evidentemente, em se tratando de seu valor pecuniário e raridade intrinseca, mas dada a importância de nosso idioma, um dos mais falados e atualmente perenes no mundo, em função igualmente importante de continua pesquisa tendo-se em mente as muitas modificações por que passou nossa lingua desde os tempos arcaicos em que brotou do latim, como no poema brasileiro, até os dias tuais desta vigorosa e saudável flor do lácio, a ultima. Marginalia tem pois o prazer de inserir em suas páginas uma pequena aventura que narra sobre um dos mais antigos destes exemplares:
De como identifiquei o «Tratado de Confissom»

As descobertas científicas situam-se às vezes numa teia de acontecimentos comezinhos, anedóticos e até burlescos. Empregando a expressão «descobertas científicas» num artigo sobre o Tratado de Confissom, não me proponho reivindicar o diploma de descobridor do primeiro livro, até hoje conhecido, impresso na nossa língua, embora identificar queira dizer, neste contexto, descobrir. O agricultor que, trabalhando numa sua quintarola, desenterra um mármore grego ou romano tem méritos indiscutíveis, mas só o arqueólogo que, pela sua ciência e
experiência, seja capaz de definir a caracterização estilística da estátua e situá-la rigorosamente na sua época, pode ser tido como seu verdadeiro descobridor. O homem que a encontrou nas leivas da sua várzea limitou-se a desenterrá-la. Pediram-me um artigo sobre o Tratado de Confissom. Redigilo não seria talvez muito difícil, já que o estudei longamente e com grande atenção e sobre ele tenho publicado trabalhos vários e, até, um largo estudo que vai dentro de alguns meses ser editado em tradução francesa no meu livro Humanisme et Renaissance — Les deux regards de Janus. Mas a história deste achado bibliográfico nunca foi contada. Valerá a pena fazê-lo hic et nunc.


1. Nos primeiros meses do já longínquo ano de 1965, corria insistentemente, entre os alfarrabistas de Lisboa, o rumor de se haver encontrado um incunábulo em língua portuguesa anterior ao De uita Christi (Lisboa, 1495), livro que era, até então, considerado como a primeira obra impressa no nosso idioma. O De uita Christi é um cimélio extraordinário por uma série de razões que concorrem neste genuíno momento da nossa prototipografia: 1.° — O seu formato, sendo o in-folio, impõe-no imediatamente como um livro grande, sendo ao mesmo tempo um grande livro; 2.° — A sua beleza gráfica e iconográfica é excepcional (os caracteres são talhados num gótico robusto e claro, impressos a duas colunas num papel consistente e resistente, enquanto as gravuras, pela sua nobreza estilística e pela sua inspiração expressiva são dignas de um grandíssimo artista); 3.° — Apesar do título latino, o texto é em vernáculo e é um documento valiosíssimo para o estudo do nosso idioma, então a sair da sua infância. Seria possível que outro livro, sem a beleza daquele, viesse destroná-lo como primeira obra impressa, nem em hebraico nem em latim mas na nossa língua? Reflectia, de mim para comigo, que seria lamentável que um opúsculo insignificante pelas suas características gráficas — se esse fosse verdadeiramente o caso — colocasse em segundo lugar na ordem da hierarquia cronológica aquele que é sem discussão um dos mais belos cimélios de toda a tipografia europeia. Por outro lado, porém, eu era forçado a reconhecer que, se isso ocorresse, ter-se-ia a compensação de um achado de extraordinário valor pelas perspectivas novas que, assim, poderiam abrir-se. Alguns livreiros amigos segredavam-me, contudo, que se tratava de um pretenso incunábulo ou de um pseudo incunábulo — para não dizer um incunábulo falso. Perante estes rumores, com a minha experiência e o meu conhecimento da tipografia quatrocentista, não hesitava exprimir o meu cepticismo. De facto nada é mais difícil, em termos de restauro arqueológico, do que forjar um incunábulo a partir dos materiais gráficos do nosso tempo, dando-lhe, no século XX, todos os caracteres de um livro do século XV. Rejuvenescer uma amadurecida matrona de 70 anos fazendoa recuar ao viço de mulher trintona é decerto menos difícil do que efectuar, com êxito, a operação de falsificar um livro nosso contemporâneo dotando-o da frescura, da pátina e da beleza de um cimélio do Quattrocento. Como quer que seja, não sabendo como proceder para apurar a verdade e remontar às origens, fui aguardando. Tinha a certeza íntima de que, mais tarde ou mais cedo, o livro viria ao meu encontro. Os objectos nobres procuram, com efeito, e acabam por encontrar as pessoas que os amam: eu não alimentava qualquer dúvida a esse respeito. Na Lisboa de 1965 — e já, de verdade, na Lisboa de 1960 — havia talvez estudiosos mais sabedores do que eu no domínio da bibliologia e da bibliografia; mas eu reivindicava, com a minha juventude de então — afirmativa e ingénua —, o primeiro lugar em termos de amor autêntico consagrado aos livros antigos: na minha incomensurável suficiência, colocava o Comandante Ernesto Vilhena em segundo lugar e o Visconde da Trindade em terceiro. A única diferença era apenas este insignificante pormenor: eles eram ricos ou, pelo menos, suficientemente abastados para poderem adquirir tesouros bibliográficos que conheciam menos bem, enquanto eu vivia apenas, junto de minha pequena família, com um salário que mal bastava para satisfazer a renda do apartamento, como era, então, o de um segundo assistente da Universidade de Lisboa. A magreza dos recursos tinha, porém, a vantagem de aguçar a inteligência na pesquisa ou procura de meios ortodoxos que permitissem não só manter um nível decoroso de vida mas também poder, através de um jogo de trocas bibliográficas entre a Itália, a França e Portugal, dar-me a ilusão de rivalizar com aqueles potentados da bibliografia lusíada. Nos inícios de Maio de 1965 visitei o livreiro Américo Francisco Marques, sito então num primeiro andar da Rua da Misericórdia. Era uma manhã radiosa, com um céu cristalinamente azul. Depois dos cumprimentos cordiais, formulei a pergunta que ritualmente vinha repetindo desde Março desse ano: «Sabe da existência de um incunábulo em português, do qual se diz ser anterior ao De uita Christis?» O meu interlocutor hesitou, numa pausa. Mesmo antes que tivesse murmurado um só monossílabo, compreendi que tinha ido bater à porta justa. Com um sorriso entre enigmático e malicioso, abriu uma gaveta, estendeu-me uma página de fotocópia e, acompanhando o gesto franco com uma inflexão interrogativa, perguntou: «Será este o documento que procura?» Devorei com os olhos as duas colunas da página, impressas num gótico cansado. Lá estava o colofão redigido na nossa língua:
«Este tratado de confissom se aca / bou na uila de chaues aos oyto di / as do mes de agosto. Ano de mill / e quatrocentos e oytenta e
noue anos: / Laus tibi xp~e. / Deo gratias / Amen» /.
Li, reli, voltei a ler e a reler. Respondi ao meu amigo livreiro que sim, que era aquele o documento que eu procurava. No meu entusiasmo, afirmei logo que era autêntico e que desejava dar notícia da sua existência. Américo Francisco Marques procurou refrear-me, esboçando o gesto de quem pensa que tudo acaba por estar certo, se for feito a seu tempo e sem pressas. Não é que ele tenha uma concepção panglossiana da vida. Sereno e confiante, da serenidade e confiança que exornam geralmente a personalidade do self made man, prometeu-me que dentro de pouco tempo apresentaria os dois indivíduos que eu desejava conhecer: o incunábulo e o seu dono. Fiquei aguardando. Dias depois, pelo telefone, marcou-se um encontro a quatro com o cimélio, o seu proprietário, Américo Marques e o autor destas linhas. Na espectativa, eu perguntava-me a mim mesmo se não podia nascer, deste encontro a quatro, uma pequena revolução cultural para o nosso século XV. Não recordo exactamente em que dia ocorreu este encontro, mas posso situá-lo com uma pequena margem de erro: teve lugar entre o dia 8 e o dia 12 de Maio, às 16 horas, na própria livraria de Américo Francisco Marques. Às 15,45 horas subi de três em três os degraus da escada que levava ao primeiro andar e abri a porta, sobre a direita. O livreiro disse-me que Tarcísio Trindade — pois era este o nome do feliz possuidor do cimélio — seria pontual. Este jovem educadíssimo chegou à hora marcada, desembrulhou um conjunto de fólios in-quarto sem encadernação e depô-los nas minhas mãos. Todos os homens que se consagram à actividade intelectual têm pelo menos uma vez na vida, um átimo de graça em que estão convencidos de estarem possuídos por um espírito paraclético ou habitados fugazmente por uma iluminação indefinida. Foi-me dada uma tal experiência (que repetia momentaneamente uma outra que me fôra facultada em Florença, às 7 horas da manhã, de um dia de Junho de 1949, entre il Duomo e il Battistero) no próprio instante da primeira impressão táctil com o incunábulo: senti a sua autenticidade. (Em Florença não fora só a revelação fugacíssima do déjà vu, mas algo de mais profundo). Ao contacto com o papel daquele venerável livro, que completará o seu milénio dentro de alguns meses, a perturbação manifestou-se no tremor das mãos: tinha uma certeza intelectual bem sólida de que se tratava de uma «descoberta». Mas esta não estava ainda cumprida, era apenas pressentida. Havia, agora, que estabelecer um trânsito lógico, através de argumentos concretos, da fé que arrasta montanhas para a razão que no-Ias ajuda realmente a transpor, subindo e descendo. Li em diagonal algumas páginas, observei em contra-luz a filigrana do papel, percorri o latim litúrgico das três últimas páginas (as outras todas são em vernáculo) a precederem o colofão, tomei notas com atenção meticulosa e propus, a Tarcísio Trindade, um do ut des que fosse reciprocamente útil: eu desejava estudar o livro, gratis et pro amove scientiae; ele, como mercante, era legítimo que alcançasse o seu ganho. Pedi uma fotocópia e comprometi-me a escrever um artigo de fundo no Diário de Notícias, o jornal português então mais lido e prestigiado (como suponho que é ainda hoje). Tarcísio Trindade residia então em Alcobaça e não escondia o seu desejo de vender o livro. Disse-lhe que, com o meu artigo, ía logo vendê-lo. «Por quanto?», perguntou, entre curioso e subtilmente ingénuo. «Pode pedir o que quiser», repliquei; «mas não ultrapasse os quatrocentos contos». Era, em 1965, uma quantia elevada (hoje não passa de um montante modesto, que mal dá para adquirir o De rebus Emanuelis gestis de D. Jerónimo Osório, de 1571, que é obra importante mas não edição muito rara). Tarcísio Trindade, como livreiro, estava então nos seus princípios. Era um bibliógrafo inteligente, culto e informado, mas sem a experiência que hoje tem, e aprestava-se a constituir família. Se lhe fosse dado fabricar, com a venda da obra umas centenas de contos, seria esse um bom primeiro passo para que o matrimónio começasse a converter-se em património. Despedimo-nos com a promessa para muito breve, de um artigo acerca do Tratado de Confissom. O mês de Maio, para um jovem assistente universitário, era, porém, nesses tempos, um período difícil. Impunha-se corrigir e classificar todos os exames escritos, pois se aproximava o momento das reuniões dos conselhos de docentes correspondendo
a um determinado ano de cada secção. Por outro lado, não tendo ainda em meu poder a fotocópia do livro e dispondo apenas das notas que redigira durante os escassos sessenta minutos do encontro, fui tomado por um certo receio. Deixei, pois, correr alguns dias, dedicados à tarefa de corrigir as provas dos alunos, sem me ocupar do livro.

No dia 15 ou 16 Tarcísio Trindade chamou-me ao telefone, da sua casa de Alcobaça. Desejava saber se já tinha escrito o artigo e quando seria publicado. Disse-lhe da grave responsabilidade que representava, a nível público, anunciar uma descoberta tão importante e revolucionária. Não escreveria o artigo se me não fosse dado poder dispor da obra durante, pelo menos, três horas de estudo. Pusemo-nos de acordo para um novo encontro em minha casa, das 21 às 24 horas do dia 18 de Maio. Se retive esta data, é porque, nesse dia, proferi, no teatro do Palácio Foz, uma conferência sobre a Divina Commedia de Dante, pois em 1965 celebrava-se o sexto centenário do nascimento do grande Poeta. Foi-me dado, no serão desse dia, fazer um exame aprofundado do paleótipo. Tomei novas notas, desenhei cuidadosamente a marca de água, para a confrontar com as que Briquet reproduz no seu célebre manual e fiquei de posse de uma xerocópia. O artigo foi escrito de jacto, entusiasticamente. O título apareceu com pouco rigor, porque se não trata, de facto, do primeiro incunábulo português, mas do primeiro incunábulo em português. Escrevi a Natércia Freire uma carta evidenciando a importância extraordinária do anúncio: o Tratado de Confissom antecipava de seis anos a entrada da tipografia de língua portuguesa no nosso país. Além disso, abriam-se novos horizontes ao estudo da nossa incunabulística. Se, em 1965, se descobria um livro quatrocentista anterior ao De uita Christi, totalmente ignorado por todos os bibliógrafos portugueses e do qual não havia rastro em nenhum grande reportório bibliográfico, quem pode garantir-nos que não existirão outros livros impressos em português, e porventura mais antigos? Natércia Freire, que é uma mulher cultíssima, além de muito inteligente — e é igualmente poeta, de uma sensibilidade delicada e subtil, portanto capaz de entender e de sentir o significado espiritual de uma tal descoberta —, mandou logo publicar o artigo que apareceu em fundo no Diário de Notícias de 25 de Janeiro desse ano de 1965. Cumprira o prometido e, absorvido pelas reuniões de final do ano, não saía de casa. Os diários desse final de mês não falavam, porém, senão do Tratado de Confissom. Raúl Rego, distinto bibliófilo — e elemento muito activo na militância contra a situação política — soube aproveitar os factos então ocorridos para pôr em causa a «negligência» do poder. Acontecera que uma senhora adquirira por 400 000 escudos o Tratado de Confissom que Tarcísio Trindade e Américo Marques entregaram ao livreiro mais prestigioso de Lisboa, João Rodrigues Pires, director de O Mundo do Livro. A pessoa que, em troca dos quatrocentos contos em bilhetes de mil escudos, recebera o documento, desapareceu tendo deixado ao livreiro um endereço desconhecido e, como é fácil de adivinhar, não correspondendo à verdade. A polícia ocupou-se do acontecimento e acabou por deslindar a meada. Teria o livro sido vendido para o estrangeiro? — perguntava Raúl Rego. Pelo que me diz respeito, antes de enviar o artigo ao jornal, dirigi uma carta ao Director Geral do Ensino Superior anunciando-lhe o achado e exortando-o a adquirir a obra para a Biblioteca Nacional. Estava, portanto, tranquilo com a minha consciência. Aquele alto funcionário do Ministério deve ter consultado as «autoridades» neste domínio bibliográfico. Esses ilustres técnicos tranquilizaram-no decerto com um discursozinho mais ou menos deste teor: «Senhor Director Geral: Não dê V. Ex.ª ouvidos a palavreado sem consistência. O P.M. é um moço cheio de entusiasmo e de muitas leituras, mas, neste caso, tomou a nuvem por Juno. Não dê importância, porque o nosso primeiro livro impresso em português é o De uita Christi, não tenha disso a menor dúvida. Consulte o patriarca da nossa Bibliografia, Barbosa Machado. Leia Inocêncio. Veja no Samodães e no Ameal. Leia o Brunet, o Hain, o Graesse, o Polain, o GesamtKatalog. Nenhum destes clássicos menciona o Tratado de Confissom. Não duvide, Excelência: trata-se de um presunto incunábulo». Um comunicado oficial falou, de facto, do «presunto incunábulo». O comprador tinha sido um culto banqueiro, o Dr. Miguel Gentil Quina, possuidor de uma excelente livraria, o qual, não desejando que se soubesse quem era o comprador, encarregou uma sua secretária de agir por ele. Acabou por ir pessoalmente ao Ministério para pôr à disposição das autoridades «o corpo do delito» per amor di patria. Uns meses depois o cimélio foi declarado de interesse e arrolado. O jovem que identificara o livro ficou, naturalmente, de lado. Jorge Peixoto que, desde a primeira hora, manifestara a sua concordância, veio visitar-me para me dizer que, não conhecendo bem a obra, se sentia mortificado por ser chamado a participar num tal acto. Tranquilizei-o: «pour être heureux, vivre cache». Era natural que fossem chamados ao Ministério os representantes da ciência bibliográfica oficial. O artigo de 25 de Maio desencadeou, portanto, um debate e provocou uma certa efervescência em meios cultos. Na Universidade os reflexos foram diversos e graduados. Os professores mais preparados como Virgínia Rau e Lindley Cintra manifestaram logo um grande interesse pelo achado. A historiadora, que não simpatizava muito comigo, não sei se pelas minhas relações com a cultura estrangeira, se por eu não ser da sua escola nem seguir muito as suas directrizes de história económica, convidou-me a orientar um seminário no seu departamento. Lindley Cintra desejou colaborar, com Virgínia Rau, com o padre Mário Martins e comigo, num estudo a quatro acerca do cimélio (estudo que nunca foi possível levar a bom termo): Virgínia Rau estudaria aspectos do contexto histórico em que aparecera o livro; Lindley Cintra, grande filólogo, ocupar-se-ia dos lados linguísticos; Mário Martins da parte casuística e eu do tema bibliográfico. Sendo, dos quatro, o menos competente, mas porventura o mais diligente, foi-me forçoso estudar sozinho todos esses aspectos na edição publicada em 1973, como primeiro livro de uma colecção, os Portugaliae Monumenta Typographica, que a Imprensa Nacional se comprometeu a editar e os acontecimentos de 1974-1975, estabelecendo, com alguma confusão, um regime democrático em Portugal, prejudicaram. Não é que a Democracia seja incompatível, antes pelo contrário, com a cultura antiga e moderna. Mas nem sempre os homens que se dizem democráticos o são verdadeiramente. Uma tal colecção, parecendo a alguns espíritos modernos e abertos surgida de uma concepção elitista da vida intelectual, estava naturalmente condenada, em período de confusão, a desaparecer. Felizmente o Tratado de Confissom foi editado e teve mesmo a honra de ser discutido na Sorbonne, em Paris, perante um júri presidido por um sábio de prestígio mundial, Marcel Bataillon.
O artigo de 25 de Maio de 1965 teve eco nalguns países europeus: na Alemanha, na Bélgica, na Itália, na própria Inglaterra. Em Roma, L’Osservatore Romano consagrou-lhe um artigo. Os técnicos do Gesamtkatalog de Berlim pediram-me esclarecimentos e vieram a reconhecer como boas as minhas razões. Talvez valha a pena evocar, ainda, outros comentários. Em fins de Maio ou inícios de Junho de 1965 os professores universitários que participaram num congresso luso-brasileiro de cultura, que tinha sido presidido pelo Prof. Marcello Caetano, encontraram-se com ele num jantar, que teve lugar num restaurante de Lisboa. Era, no espírito de todos, uma homenagem ao presidente que, fora de toda a política e só atento ao prestígio da ciência e da cultura, conduzira com dignidade a representação portuguesa. Lembro-me só de alguns nomes, entre os participantes: além de Marcello Caetano, Manuel Lopes de Almeida, Mário Tavares Chicó, Joaquim Veríssimo Serrão, Maria de Lourdes Belchior e outros. Fui informado de que, durante a refeição, quase só se havia falado do Tratado de Confissom. Com a concordância de Lopes de Almeida, Marcello Caetano exprimia-se mais ou menos assim: «Sem querer desfazer do valor do rapaz, estou convencido de que ele não tem razão. A data do colofão não é o termo na
composição e impressão do livro, mas da redacção do manuscrito. O livro acabou-se na vila de Chaves, o que quer dizer, o manuscrito foi concluído na vila de Chaves, na data indicada». Informado telefonicamente desta objecção, preparei novo artigo, não só reduzindo à sua insignificância estes reparos, que não tinham fundamento, mas trazendo novos elementos que, entretanto, eu tinha alcançado de um confronto muito pormenorizado com incunábulos espanhóis de Zamora e Salamanca um pouco anteriores a 1489. O meu artigo começava por indicar que, de facto, se destinava a pessoas cultas (e Marcello Caetano era cultíssimo), mas não especialistas de bibliografia. Este segundo artigo foi publicado em fundo do Diário de Notícias a 20 de Junho de 1965. Marcello Caetano, em carta escrita no final desse mês, confessou-se vencido e convencido, havendo reconhecido a importância da descoberta para a incunabulística nacional. Em Dezembro de 1974 (exactamente no dia 19), perante um juiz formado por Eugénio Asensio, Robert Ricard, Paul Teyssier, Raymond Cantel, André Saint-Lu e Marcel Bataillon, que presidia, defendi as minhas teses de doutoramento de Estado na sala Louis Liard da Sorbonne. Uma das teses era exactamente a edição diplomática do Tratado de Confissom e principalmente o meu estudo sobre os problemas do Livro português no século XV. Robert Ricard, não tendo compreendido inteiramente a ironia da minha interpretação de alguns aspectos mais pitorescos e picantes daquele texto, procurou com muita seriedade convencer-me da importância do sacramento da confissão na sociedade portuguesa do século XV, sem se aperceber de que estava a arrombar... uma porta aberta. Mas fê-lo com uma impecável delicadeza e com uma erudição excepcional. Marcel Bataillon discutiu comigo problemas erasmianos e erasmistas, domínio em que era o mais consumado investigador da época contemporânea. Mas Eugénio Asensio ocupou-se exclusivamente do Tratado de Confissom, lendo, um estudo que veio mais tarde a ser publicado, com o título de «Une découverte bibliographique», nos Arquivos do Centro Cultural Português de 1977. Recentemente, em 1986, uma distinta bibliógrafa, Rosemarie Erika Horch, sustentou que o Sacramental, de que o único exemplar conhecido, numa edição quatrocentista, existe na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, foi publicado em 1488, também em Chaves, fundando-se, para tal afirmar, num testemunho indirecto. Na verdade não repugna aceitar que a data do Sacramental seja anterior à do Tratado de Confissom. Infelizmente, porém, o exemplar da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é mutilado, faltando-lhe exactamente o fólio em que devia aparecer o colofão. Estou, contudo, convencido de que a tipografia de língua portuguesa deve ter aparecido em Portugal na década de 1480, embora não possa apoiar, com documentos indispensáveis, esta minha convicção. A qual, por isso mesmo, não pode ser apresentada em termos científicos, exactamente como a hipótese da distinta bibliógrafa Rosemarie Erika Horch. Levar-me-ia muito longe esta breve dissertação se, agora, me dispusesse a pôr em evidência aspectos fundamentais do texto. De facto, trata-se de um fresco colorido da sociedade portuguesa do século XV. Nesse fresco encontramos desenhado o gráfico existencial do homem português antigo, nas suas grandezas e nas suas misérias. Talvez que a parte mais original do Tratado de Confissom seja aquela em que o autor anónimo, que Eugénio Asensio pensa ser um franciscano observante, faz a exaltação do homem, na esteira do De hominis dignitate de Giovanni Pico della Mirandola, e critica pesadamente a corrupção eclesiástica, citando S. Francisco e exaltando o espírito de pobreza. Seria, porém, exorbitar do tema, pois, nesta nota, propus-me apenas recordar algumas ocorrências do debate que se travou em 1965, quando tive a sorte de identificar ou descobrir, como autêntico, um novo incunábulo que, na expressão de Eugénio Asensio, «supposait une petite révolution dans I’histoire de Ia culture portugaise et une grande révolution dans celle de Ia typographie».
J. V. de Pina Martins
Lisboa, 13 de Dezembro de 1988
Professor da Universidade de Lisboa. Sócio Efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.
originalmente publicadona Revista ICALP, vol. 15, Março de 1989, 119-130.

sexta-feira, julho 6

o traço do SE7E


dias atrás, na lista de discussão de tipografia, da qual participo, rolou um interessante e longo papo sobre a tradição de se cortar o sete (7) com um traço. dentre as inúmeras e bem propostas explicações pára o caso, selecionei algumas para publicar aqui

Murilo Endriss
Alguém saberia me dizer a origem do corte no sete. Muitas pessoas quando escrevem, cortam o sete outras não. Quando fiz essa pergunta ao Tony em workshop realizado em Pernambuco, ele disse que isso não existia, e esse corte era totalmente errado. Esse corte é coisa de brasileiro? Pedi para meu sobrinho de 6 anos escrever um 7 e ele cortou, ou seja ele está aprendendo dessa forma cortado. Essa semana descobri um sete cortado, o 7 para digitar a senha de acesso ao caixa eletrônico do banco itaú possui o corte no meio. No caso da criação de uma fonte com o corte no 7 seria uma característica brasileira ou uma tosqueira sem fim?

Hugo Charrão, Portugal
Relativamente à origem do corte do sete não te sei responder, o que é certo é que é utilizado com muita frequência, principalmente em letra manuscrita. Quando aprendi a escrever aprendi a escrever o sete com corte, hoje tenho 25 anos e continuo a fazê-lo, aqui em Portugal. Se formos ver manuscritos antigos o sete está cortado, a minha avó com 82 anos escreve o sete com corte. A ser uma característica específica, será da língua portuguesa.

Em desenho tipográfico nunca vi o corte no sete. Os comentários que estou a fazer baseiam-se enquanto observador, não há qualquer base científica. Mas acho que a questão é bastante pertinente, se houver alguém com alguma informação específica nisso seria bom esclarecer. Porque será que escrevemos o sete com corte, e sem corte quando se desenha uma fonte?

Fabio Lopez
O sete cortado tem origem bíblica.

Reza a lenda que Moisés desceu do Monte Sinai com as tábuas dos dez mandamentos e começou a lê-las para seu povo. Quando chegou no sétimo mandamento 'não cometerás adultério' o povo se revoltou e começou a gritar:

Corta o sete! Corta o sete!

Em grafologia, se você quiser saber se alguém 'mija fora do pinico' é só verificar se o sujeito corta o sete ou não. Desde os primórdios o sete vem sendo cortado no mundo inteiro, mas é que no Brasil a coisa é meio institucionalizada.

Aliás, perceba que o quatro também é cortado, e pelo mesmo motivo. Na versão original dos dez mandamentos, o de número 4 dizia que o sétimo dia da semana deveria ser reservado para descanso. Em hebraico esse dia se chama shab báth, ou sábado. Aos poucos as pessoas foram preferindo o domingo para ficar de bode e tascaram um traço no quarto, pra dizer que esse também não seria cumprido.

Se você conhecer alguém que risca o 6, o 8, o 9 ou que não consegue desenhar um algarismo sem risca-lo: sai de perto que o cara é um perigo...

De onde você acha que vem a expressão X-9 por exemplo? Do nono mandamento, que é 'não levantarás falso testemunho contra teu próximo'. Ou seja, não cagüete teus amigos! O cara que corta o 9 (com vontade, diga-se de passagem) merece morrer na vala! hehe...

Sebastião Miguel
gostei, mas achei isso: O numero 7, não apenas tem o risco do meio, como também tem um risco em baixo quando foi criado. Quem criou os numeros, os fêz pensando num modo fácil de memorizar, no qual, cada numero representa uma certa quantidade de angulos.
Por exemplo:
1 -> um angulo
2 -> dois angulos..
8 -> oito angulos..
0 -> valor nulo, não possui angulos.

o sete é cortado para que nos manuscritos ele não seja confundido com o 1

Paulo W
Ninguem criou um algarismo ou uma letra. São criações coletivas que avançam e recuam na forma com o passar dos séculos. As vezes uma cultura simplesmente absorve uma forma PRONTA para seus fins. É o caso de como os gregos usaram alguns e negaram outros dos caracteres fenicios. E depois os romanos fizeram o mesmo com o alfabeto grego, que ainda se subdividiu gerando o iidiche.
Vejam minha suposição: os gregos utilizaram certos caracteres fenicios mudando-lhes todavia a representação fonética. Então tivemos um momento histórico em que o caracter "tal" manteve sua forma mas foi lhe dada outra representação fonética.
É possivel que, ao invés de terem se criado os angulos para a idealização dos algarismos tenha acontecido o contrário, certos algarismos preexistentes com determinado numero de angulos foram sendo entendidos como portadores da mensagem "1", "2" e assim por diante
O livro "O Livro" de Douglas MacMurtrie é muito didático nos ajudando a entender a evolução dos alfabetos. A coisa mais importante que aprendi lendo-o foi: os alfabetos receberam tantas influencias de tantas fontes de maneira que não podem ser compreendidos linearmente


Fabio Lopez
tenho acompanhado umas aulas de paleografia na uni-rio com o excelente professor franklin leal e você não faz idéia de como os escribas portugueses eram porcalhões de mão pesada.

essa história de diferenciar as letras tem caráter apenas escolar, não era um pilar do trabalho apressado do escriba. aliás, como você deve imaginar, não são apenas essas letras que podem confundir-se, mas algumas dezenas de combinações que quando feitas às pressas acabam se parecendo muito (algumas formas arcaicas foram abandonadas por esse mesmo motivo).

para essas confusões a única coisa que resolve o problema de leitura e/ou transcrição é o contexto da palavra, amparado pelo teor da frase e as vezes do próprio documento - não havia tracinho que desse jeito, e nunca ouue (houve, do português arcaico ;) esse costume.

tradicionalmente também, letras tendem a andar juntas de outras letras, e números junto a outros números, fazendo com que a diferenciação entre esses dois grupos não fosse tão necessária. já estabelecer uma diferença entre o 7 e o 1 era tarefa mais emergente, já que as duas formas poderiam facilmente se substituir em qualquer contexto.

entretanto, essa tradição de cortar as letras não advém do manuscrito processual - utilizado em
documentos e burocratizes, mas da caligrafia escolar. traduzindo, é coisa mesmo lá dos manuais de caligrafia da escolinha da tia teteca.

a única maneira de saber de onde vem essa prática (e qual foi o primeiro autor a instituir esse método de diferenciação na educação brasileira) é caçar os tais manuais utilizados em cursos alfabetizantes. vai aí uma pesquisa associada de pedagogia e tipografia, pra quem quiser perder um tempinho num mestrado...


a provável explicação para que caracteres riscados sejam muito frequentes em tipografias nacionais é um pouco desanimadora: na minha opinião deve-se a falta de tradição da atividade no país, fazendo com que muitos designers acabem não utilizando modelos tipográficos tradicionais (afinal, onde está a tradição?) desenvolvendo seus alfabetos sob influência direta de modelos escolares de caligrafia cursiva.

a tendência natural (individual e coletiva) é que com experiência esses 'vícios' acabem sendo corrigidos (amparados pelas referências clássicas), retirando-se traços em 7s e Zs oriundos das aulas primárias de caligrafia - padrões de desenho de pouca serventia no desenvolvimento de uma fonte tipográfica de texto.

wolfang weingart provavelmente não aprofundou sua análise ao nosso contexto de semi-amadorismo tipográfico, tendo portanto se limitado a repetir a mesma explicação dada pela minha professora de 1a série.

domingo, abril 15

elucubrações em paleografia

as notas abaixo foram extraidas de meu primeiro projeto sobre um site tipográfico. não estão organizadas, mas podem melhorar, contudo


PALEOGRAFIA

CONCEITOS E NOCOES ENVOLVENDO PALEOGRAFIA E HISTORIA

NOTAS HISTORICAS. CONTEXTO

PALEOGRAFIA

PAPIROLOGIA

EPIGRAFIA

CODICOLOGIA, bibliologia

GENEALOGIA

NOTAS HISTORICAS. CONTEXTO

A língua portuguesa é uma língua latina. Os estilos de escrita encontrados em Portugal e no Brasil têm sua origem no alfabeto romano. Os romanos ocuparam a península ibérica (Espanha e Portugal) aproximadamente do século III AC até a queda do Império Romano o século V DC. É claro que outros grupos, além dos romanos, contribuíram para a formação da língua portuguesa. Originalmente a península ibérica foi habitada por um grupo de pessoas conhecidas como Celta-Ibéricos. Esse povo foi conquistado pelos romanos. Depois dos romanos vieram as tribos germânicas e depois os mouros, os quaís deixaram evidência de seus costumes, não apenas na linguagem, mas também na cultura dos Ibéricos, pois estes nao dominaram como os romanos, mas antes trouxeram toda a administracao e corte, fugindo de lutas entre familias rivais no subcontinente arabe, para a peninsula iberica. Todavia, a despeito dessa influência, a língua portuguesa permaneceu sendo uma língua latina, e é principalmente aos romanos que ela deve sua origem. Note que a maioria das linguas nacionais atuais surgiram no segundo milenio, atraves da fusao de dialetos e da predominancia natural (ou as vezes por imposicoes legais) de uns sobre outros. O ingles por exemplo, consolidou-se apos a publicacao dos contos de Canterbury de Chaucer, e Dante Alighieri deve ter sido o maior responsavel pela valorizacao do vulgar italiano sobre o latim na peninsula italica...


O Alfabeto permaneceu virtualmente inalterado. Originalmente o alfabeto romano era constituído de 21 letras: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V e X. Aproximadamente em 50 AC foram adicionadas as letras Y e Z. Desde aquela época tem havido muitas mudanças nas línguas latinas e na maneira de escrevê-las, mas o alfabeto, com poucas exceções, permaneceu inalterado. Por essa razão, uma vez que você tenha aprendido as características únicas de qualquer estilo de escrita e supondo que você esteja familiarizado com o vocabulário e com a gramática usados na época da escrita, você deverá ser capaz de ler qualquer documento escrito naquele estilo, com um esforço levemente maior do que levaria para ler os estilos de escrita de hoje. É claro que você ainda assim terá que lidar com má grafia, tinta borrada e falta de informação. A chave, porém, é ser capaz de reconhecer as características do estilo usadas pela pessoa que escreveu o documento. Houve, é claro, muitos outros estilos pessoais usados por milhares de escribas através do curso de quatro ou cinco séculos. Aprender todos levaria uma vida inteira. A questao da variacao caligrafica foi se homogeneizando, acredito, a partir do surgimento dos tipos moveis gutenbergianos, e tambem após o surgimento de manuais caligraficos impressos em massa com a nova tecnica (imprensa). À medida que você continuar seu estudo de paleografía ou quando você começar sua pesquisa em registros originais, será bom criar uma lista de amostras de letras que provaram ser especialmente difíceis para você. Dessa maneira você estará compilando seu estoque particular de letras, ao qual desejará recorrer, e tambem pode servir este material para a criacao de tipos digitais.


Você também poderá vir a desejar praticar a escrita de algumas das letras que são difíceis para você transcrever. Essa também é uma boa idéia quando se encontra uma combinação de letras que lhe seja nova ou estranha. Escrevendo as letras você entenderá melhor o estilo do escriba e se recordará dele por mais tempo.


Existem poucos registros de valor genealógico datados de antes de 1500. Em 1249 (se nao me engano) os portugueses declararam sua regiao reino com a expulsao definitiva dos mouros e estenderam suas fronteiras até sua atual localização. Registros têm sido conservados desde a formação do reino de Portugal. Entretanto, umas poucas evidências restaram daquele remoto período. Foi a partir do século XVI que os padres paroquiais da igreja católica foram solicitados a começar a registrar batismos, casamentos e falecimentos. Esses decididamente são os registros genealógicos mais valiosos em Portugal e no Brasil. Durante o século XVI outros tipos de registros de valor genealógico também começaram a proliferar.


Tradicionalmente, a escrita foi classificada em estilos. Desde que a paleografia é considerada uma ciência, métodos individuais de escrita têm sido agrupados em estilos, bem ao modus operandi classificatorio das ciencias. Algumas vezes é conveniente fazer isso e dar nomes a esses estilos. Eles incluem, entre outros, a caligrafia carolíngea, a gótica, a cortesa, a secretária (processal?), a secretária encadeada e a itálica. Se você está para se tomar um perito na leitura de registros e literatura de todos os períodos, será necessário um conhecimento de cada um desses estilos. Todavia, assim como com muitas disciplinas, a categorizaçào pode ser perigosa. Automaticamente surgem perguntas do tipo "se certos estilos pertencem a um grupo ou a outro ou a algum entre eles".


(o corpo original deste texto, acrescido de minhas observacoes, foi extraido de INGERS, Instituto Genealogico do Rio Grande do Sul, com site na internet)

PALEOGRAFIA

A Paleografia é a ciência das antigas escritas, da sua forma, decifração e toda a sua estrutura. Os primeiros escritos surgiram cerca de 3000 AC, tanto na Mesopotâmia como no vale do Nilo. Nas escritas primitivas os caracteres correspondiam a palavras, sílabas ou consoantes; aos Fenícios se deve a primeira escrita alfabética, que os Gregos aperfeiçoaram incluindo-lhe vogais. Os alfabetos gregos constituíram os padrões de base para as escritas bizantina e cirílica (búlgara, sérvia e nissa) na Europa Oriental, e na Europa Ocidental para a escrita latina, donde, por sua vez, derivam todas as escritas ocidentais até à atualidade. Dos alfabetos puramente consonânticos derivaram a escrita árabe e a escrita hebraica.


Exigências de organização científica determinam disciplinas especializadas para as escritas orientais, indigenas ou polinesicas; para o historiador europeu ou ocidental apenas interessam no estudo das fontes as paleografias latina, grega, árabe e hebraica.

O desenvolvimento das diversas formas da escrita latina (entre elas a gótica) deixa entrever mútua influência das escritas librária e corrente.

As escritas librárias (corresponde-lhes desde o começo dos tempos modernos a escrita impressa) devem ser quanto possível agradáveis à vista, regulares e facilmente legíveis; na escrita corrente, ou cursiva, adaptada ao uso quotidiano, importa principalmente uma forma rápida e comoda (na escrita impressa o cursivo aparece em itálico - antiqua). As ligaduras ou nexos (linhas de ligação entre as letras) e as abreviaturas encontram-se mais frequentemente, como é natural, nas escritas cursivas. Mas, todavia, atente-se para o fato de que tipografos profissionais incorporam em seus tipos ligaturas e todos os sinais e abreviaturas das escritas cursivas, e isto é muito claro nas tipologias norte-americanas do periodo colonial (vide WALDENFONT). No entanto, mesmo a incorporacao de ligaturas por tipografos profissinais termina, aparentemente, caindo em desuso pelos impressores, que optam no mais das vezes pelo seu nao uso, criando um empobrecimento estetico e alfabetico. Isto chegou ao caso, em diversas momentos historicos, inclusive por leis ortograficas nacionais ao banimento de certas letras do alfabeto. Gracas a deus estes desatinos terminaram, no mais das vezes pela reincorporacao tipografica. Quanto as ligaturas, ao menos as serifas terminaram sendo definitivamente incorporadas em muito tipos contemporaneos como forma de aumentar a legibilidade e coesao dos tipos...

Maiúsculas chamam-se as escritas com letras da mesma altura (traçáveis entre duas linhas paralelas). Minúsculas são as escritas cujas letras apresentam por vezes traços que vão acima ou abaixo das duas linhas (traçáveis entre quatro linhas paralelas).

O fato de os humanistas italianos terem dado à minúscula carolingea (VER) o sobrenome de «antiqua» resultou do desejo de regressar à escrita romana e do erro de julgar que nessa letra se tinha escrito a maioria dos textos romanos que chegou até nós. Esta escrita tambem é chamada italica e tem como caracteristica mais visivel o "a" isento do gancho superior. A letra «antiqua» foi, nos séculos que se seguiram, adotada em todos os países da Europa Ocidental (o último, a Alemanha, em 1942) e é atualmente a escrita mais divulgada no mundo. As formas «góticas» ou «alemãs» da escrita latina prevalecem na escrita decorativa e vem sofrendo um claro processo de renascimento atraves dos tipos digitais.

Simplificando, a Paleografia pode ser definida tanto como escritos antigos, ou o estudo de escritos antigos. Qualquer pessoa empenhada em pesquisas genealógicas, historicas ou literarias de registros antigos, necessitará saber ler, entender e transcrever tais registros.


A capacidade de ler e escrever Paleografia exige algumas habilidades importantes:

(1) conhecer a lingua, em principio, do texto referido

(2) saber transpor os caracteres do documento original para caracteres com os quais estamos mais familiarizados, e

(3) saber identificar as abreviações usadas no texto do registro.


Além dessas habilidades mais importantes devemos também ser capazes de interpretar os sinais de pontuação usados, separar ou unir palavras que não foram separadas ou unidas no texto original, ler e transcrever números, identificar erros no texto original e, finalmente, obter, através de tudo isso, o significado do texto. Embora, todavia, a compreensao mais acurada dos enunciados do texto caibam, no mais das vezes, a filologos, que trabalham, digamos assim, em parceria estreita com os paleografos.


É claro que cada pessoa tem um estilo ou método de escrever, o qual é único. No entanto, tem sido possível, no correr da história, reunir em grupos ou estilos definidos, muitos desses métodos individuais de escrita. Tais estilos podem variar de época a época, de país a país, e até mesmo entre tipos diferentes de documentos. Entretanto, uma vez que se tenha aprendido as características especiais de qualquer estilo, deveríamos ser capazes de ler qualquer documento escrito naquele estilo, usando para isso, de um esforço apenas ligeiramente maior do requerido para ler os atuais estilos de caligrafia. Naturalmente, teríamos que lidar com variações daquele estilo, má caligrafia, tinta desbotada etc. Mas o segredo de poder ler qualquer estilo determinado de caligrafia é simplesmente ser capaz de reconhecer as características daquele estilo.

Os estilos típicos da Ibéria e Ibero-América se originaram do alfabeto romano, usado desde pouco tempo antes época de Cristo. No início, tal alfabeto consistia de 21 letras: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V e X. As letras Y e Z foram adicionadas aproximadamente em 50 A.C. Desde aquele tempo tem havido muitos estilos diferentes, ou modificações de estilos que foram adotados, rejeitados, modificados e remodificados. Esses estilos foram agrupados e classificados e incluem, entre outros,


a caligrafia Carolíngea, resultante de uma reforma introduzida durante o reinado de Carlos Magno,

a caligrafia Gótica, de origem germanica

a caligrafia Cortesa,

a caligrafia Secretária (vide processada ou processual)

e a caligrafia Secretária Encadeada.

Devemos chamar a atenção para o fato de que como em muitas outras disciplinas, a categorização pode ser perigosa. É conveniente que sejamos capazes de classificar esses vários estilos em grupos e dar-lhes nomes e títulos. Entretanto, logo que se cria uma categoria ou um grupo, automaticamente surgem dúvidas quanto a se um estilo pertence a este ou àquele grupo, ou se está em algum lugar no meio. Como Eduardo Nunes explica: "A classificação das letras é um rito sagrado, mas ao qual, atualmente todos os paleógrafos desejariam poder furtar-se... porque, tanto a terminologia (base da classificação), como a própria metodologia (postulado da terminologia) se encontram em plena crise de refundição. "

As categorias, no entanto, são convenientes e por essa razão são e continuarão a ser usadas.

Os registros de valor genealógico na Ibéria e Ibero-América, não foram iniciados até o princípio do século XVI, e os estilos predominantes usados desde aquele tempo sao a caligrafia Secretária, a caligrafia Secretária Encadeada e a Itálica.


A Escrita Processual e Encadeada


"A escrita processual é eminentemente cursiva, permitindo dessa forma aos escreventes, grande liberdade no traçado. Como conseqüência, surgiu a degeneração da letra, sendo difícil encontrar, em toda a paleografia latina e suas aplicações nas línguas vernáculas, uma escrita com tantas formas divergentes como o é a processual. À primeira vista, os variados manuscritos examinados por pessoas que não estão a par do traçado da escrita processual, podem levar à conclusão de que se trata de vários tipos de escritas. O motivo para tal, é que os tipos de caligrafia processual oscilam entre os parecidos à cortesa, que ainda mantém algumas das formas anglicanas herdadas da gótica cursiva - da qual se originou - até os extremamente redondos da caligrafia encadeada, sendo esta a última degeneração do ciclo - cortesa - processual e encadeada. " (Aurélio Tanodi - Interpretação Paleográfica de Nomes Indígenas, Córdoba, Argentina: Editor, 1965, p. 38.)



A Escrita Itálica ou Bastarda


"O ensino sistemático constitui uma das principais características da escrita bastarda. Os calígrafos do século XVII e anos posteriores, seguiam a escrita itálica ou bastarda, porém, com pequenas modificações. Os escreventes tiveram então exemplos calígrafos aos quais podiam recorrer e o ensino dispunha de bons manuais.


Apesar do ensino sistemático e dos exemplos caligráficos, nem todos aderiram extremamente à formação caligráfica. Havia pessoas que aprendiam a escrever sem haver tomado cursos especiais, isto é, sem passar por um aprendizado sistemático. Outras, embora o fizessem, degeneravam sua escrita pessoal, afastando-se dos preceitos caligráficos, devido a ser a caligrafia bastarda um tipo de escrita cursiva usada para uma grande variedade de manuscritos. Dessa forma, encontramos na mesma região e época, manuscritos de diversos aspectos - desde os altamente caligráficos até os extremamente descuidados. Isso dependia de muitos fatores: a perícia gráfica do aprendizado, a intenção com que se confeccionava o manuscrito, a importância do mesmo, o aspecto externo e sua composição interna, etc.


Em geral, a escrita bastarda é muito mais clara e legível do que a processual ou a encadeada; não obstante, existem textos que apresentam sérias dificuldades e requerem estudo especial." (Aurélio Tanodi, idem, p. 40.)




GENEALOGIA

Victorino Coutinho Chermont de Miranda


A palavra GENEALOGIA vem das palavras gregas: GENEA = geração e LOGIA = discurso. (MAS O TERMO GENS É USADO MUITO E ESPECIFICAEMTE EM ROMA, NOTA DE PW)(ver o historia em encilopaedia)


A genealogia é, dentre os ramos do saber, o que se refere às famílias, estudando-lhes as origens, mostrando a sua evolução, descrevendo as gerações e traçando, embora resumidamente, a biografia das pessoas que as compõem.


Antigamente tinha a genealogia não somente a finalidade de registrar as gerações, mas igualmente a de servir às habilitações de "genere" dos que pretendiam entrar nas ordens religiosas e militares, na magistratura, nos cargos do Tribunal do Santo Oficio (que, sabemos, tambem perseguia judeus), e em quaisquer posições para as quais se exigisse a chamada "limpeza de sangue".


Hoje, destina-se a reconstituir o passado de cada grupo familiar, retomar laços de parentesco e, sobretudo, revelar o processo de formação social de uma região. Por isso se costuma dizer que a genealogia deixou de ser uma ciência auxiliar da História para tornar-se uma parte dessa própria Historia, tantos e tais os elementos informativos com que trabalha.


Os trabalhos genealógicos feitos com o rigor e método exigidos modernamente são complexos, por que utilizam elementos de variada natureza.



PAPIROLOGIA

Como material suporte da escrita, o papel só é conhecido na Europa a partir do século XIII. Ao longo de processo lento que se estendeu até à actualidade foi substituindo o antigo pergaminho; Por sua vez este desalojara o papiro desde o inicio da Alta Idade Média, determinando simultaneamente o abandono dos rolos (de papiro) em favor dos códices encadernados (de pergaminho e depois de papel) até à forma de livro que usamos hoje.


O papiro foi no antigo mundo mediterrâneo o material de escrita mais utilizado, datando os últimos papiros conhecidos do século X. Extraído da medula da planta do papiro, cultivada principalmente no Egito, nele se escrevia com tinta e cálamo (pena de junco).

Infelizmente os papiros depressa se estragam; os que chegaram até nós provêm sobretudo do solo árido do Egito. O estudo particular dos papiros levou no século XIX à formação da Papirologia como disciplina independente, que não se limita, no entanto, à conservação e leitura dos papiros, mas também à sua interpretação.



EPIGRAFIA
Em todas as épocas se utilizaram também para suporte da escrita matérias sólidas como a madeira, a pedra e o metal.

EXEMPLO NUMISMATICA

As inscrições não propriamente escritas, mas incisas ou gravadas, constituem o objecto da epigrafia. Esta ciência alcançou lugar de particular relevo principalmente no estudo da Antiguidade (sobretudo greco-latina). A epigrafia tem reunido vasto material de fontes, não só para a história social, económica e administrativa, mas também para determinadas fases da história política sobre as quais a historiografia antiga nada nos diz. Novas descobertas a cada passo vão alargando essas fontes, que um trabalho minucioso de interpretação torna extraordinariamente úteis.

Reúnem-se desde o Humanismo – Ciríaco de Ancona (1391-1450) foi chamado o "Pai da Epigrafia" – inscrições antigas; a sua publicação sistemática em grandes «corpora» começou no século XIX com A. Boeckh (1785-1867), Th. Mommsen (1817-1901) e outros. No que respeita à Idade Média, a epigrafia está ainda nos começos e quanto aos tempos modernos podemos dizer que mal se esboça



CODICOLOGIA (BIBLIOLOGIA)


É, em correspondência com a papirologia e a epigrafia, o conceito que abrange a ciência dos documentos manuscritos ou impressos, tanto de pergaminho como de papel, encadernados em livro (códices). Os primeiros codices de que tenmos noticia se originaram de compoilacoes realizadas por monges catolicos em diversos mosteiros europeus, que nao apenas guaradavam a cultura mas a produziam



HISTORIA DOS SUPORTES (TREE) CRIAR CORTINA

TABUAS DE BARRO
PAPIROS (antigo egitpo)
PERGAMINHO (alta idade media)

CHARTA LINTEA
PAPEL (a partir do seculo XIII)
nao esquecer a runas e otras formas portugaL POR EXEMPLO EM PLACAS METALICAS + moedas

monumentos

utensilios (armas, vasos)

monumentos funerarios